CONTROLE DE FLUTUABILIDADE

Acredito que muitos irão se identificar com a minha divertida narrativa, a respeito da dificuldade que enfrentei no controle de minha  flutuabilidade no mergulho.
A boa notícia é que, além de você não ser o único, esse problema tem solução! 

Por Cristina Paredes

Quando a gente sonha em ser mergulhador, procura uma escola de confiança ou a indicação de alguém, se inscreve, participa das aulas teóricas e práticas de piscina, e depois fica naquela ansiedade para o check-out no mar.

No dia do nosso derradeiro e primeiro encontro com o oceano, já paramentados com todo o equipamento, seguimos as instruções que nos são dadas à risca, nos concentramos nos exercícios que temos maior dificuldade e, tudo correndo bem, saímos desse final-de-semana credenciados mergulhadores. Difícil segurar a ansiedade e sonhar quando faremos nossa primeira experiência com a carteirinha na mão.

E quando chegou a minha vez, não foi diferente.  Lá estava eu, sozinha naquele barco onde todos pareciam saber exatamente o que era preciso fazer…menos eu! A primeira reação do novato é fingir entendimento, ou acabar assumindo a humilde condição de iniciante e pedir socorro para quem parece mais entendido naquela embarcação: o DM ou o Instrutor. Equipamento bem preso ao cilindro, tudo checado e em ordem! Vencida a primeira barreira, dou o passo de gigante e afundo até praticamente o fundo, de tão pesada que estou. Mas é fácil penso eu com meus lastros: é só colocar um pouquinho de ar no colete e pronto. Ops, acho que coloquei ar demais, deixa tirar um pouquinho de novo. Dou algumas pernadas…começo a subir, tiro mais um pouco do ar…me sinto pesada…dou umas pernadas e quase acerto com a nadadeira num ouriço. Melhor colocar mais um pouco de ar. Acho que vi um peixe passando por mim, mas não consegui prestar atenção de novo. Droga! É impressão minha ou estou subindo de novo!?

Se tem uma coisa que não solto de jeito nenhum, é a purga do colete, mas desconfio que devo estar me confundindo com os comandos, ou seja, devo estar tirando ao invés de colocar ar, e vice-versa. Essa seria a explicação lógica, certo? Olho para o DM que me sinaliza para mostrar o quanto de ar tenho ainda: olho o manômetro e respondo com o sinal correspondente: 80. Reparo que os demais tem 100, 110 – nossa, acho que estou respirando forte demais! Passo o mergulho em luta constante com o efeito balão de gás, pois é exatamente como me sinto, além de marcas de raspão nas nadadeiras e nas roupas – me sinto uma verdadeira assassina de corais e rezo para só ter me ralando em pedras. O segundo mergulho transcorre com um pouco mais de facilidade, mas mesmo assim, o efeito sobe e desce me acompanha de tal maneira, que começo a acreditar que mergulhar é isso mesmo.

Essa narrativa te parece familiar? Você já passou por isso? Pois não ter o controle de flutuabilidade é uma das maiores dificuldades que a grande maioria dos mergulhadores sofre no início, mesmo que poucos admitam. É tão comum que existe inclusive um curso específico na PADI para auxiliar o mergulhador a corrigir essa dificuldade, que se chama PPB “Peak Performance Buoyancy”, ou seja, Máximo Desempenho em Flutuação ou, popularmente conhecido apenas como “Curso de Flutuabilidade”. Após alguns mergulhos onde eu continuava a manter os meus altos e baixos, descobri a existência desse curso e rapidamente me inscrevi na primeira turma disponível. Foi a melhor decisão que fiz, além do curso de mergulho propriamente dito.

Pode parecer estranho, mas no curso Básico de Mergulho estamos tão concentrados em utilizar todo o equipamento e respirar debaixo d’água, que o controle de nossa própria respiração acaba ficando negligenciado. Quando eu via um recife que eu precisava subir para seguir o caminho, minha ação lógica era colocar mais ar no colete para flutuar acima dele – eu não sabia que meu próprio pulmão poderia fazer essa função, bastando inspirar e, uma vez em cima, tirar o ar do meu pulmão para descer. Claro que, como a minha opção era inflar o colete para fazer a operação, uma vez lá em cima eu acabava ficando mais leve ainda e, dependendo da profundidade, começaria a subir. No desespero, esvaziaria muito o colete e ficaria pesada demais, colocando de novo em rotação o processo “balão de gás”. Outro erro comum é ter medo de não conseguir afundar e assim, colocar mais lastro do que o necessário para o nosso peso e roupa de exposição, o que acaba transformando o mergulho numa operação muito cansativa, que consumirá ainda mais gás.

O curso de Flutuabilidade é muito interessante, porque abre o leque de alternativas que você tem que levar em consideração, até mesmo antes de entrar na água. É uma observação a respeito do equipamento que você está utilizando, o tipo de roupa, a profundidade do local. Mas o curso vai muito além da parte teórica – o treinamento em piscina é primordial para colocar em prática e com tranquilidade, todas as dicas que você recebeu em sala de aula. Se você quiser ir mais além, pode optar por fazer o check-out em mar, que são 2 mergulhos. Não existe nada melhor do que ter um instrutor dedicado e atento aos seus movimentos, corrigindo postura, controle de respiração, entre outras técnicas.

Saí do curso literalmente flutuando, mas dessa vez, no bom sentido. Tudo que aprendi foi colocando em prática, e meus mergulhos foram de 10 a 200. Quando via uma elevação maior no meu percurso do mergulho, inflava o pulmão e, maravilhada, via que eu subia com facilidade, assim como descia na sequência – isso sem colocar a mão no colete! Após um tempo, consegui um maior controle para chegar próximo ao fundo sem levantar sedimentos e conseguir observar aqueles seres que ficam entocados nas entranhas das tocas. Hoje sempre falo – mergulhar é muito mais do que observar os peixes que passam ao seu redor: é procurar vida nos lugares mais improváveis.

 

O passo seguinte foi ainda mais maravilhoso: foto sub! Eu jamais pensei na vida que iria flutuar, mirar e tirar foto – não tem coisa que prove o melhor controle de flutuabilidade do que isso.

Então, se você ainda está no primeiro patamar, sendo um balão de gás no sobe e desce, se inscreva o quanto antes no curso de PPB, e mude a configuração de seus mergulhos para melhor. Agora, se você é aquele que apenas observa e critica o mergulhador que não tem uma boa flutuabilidade, oriente-o a respeito do curso e o incentive a crescer. Ele com certeza irá te agradecer depois.

10 comentários em “Controle de Flutuabilidade

  1. Perfeito, dei várias risadas, me lembrando dos meus mergulhos, e só ver uma vida interessante e o próximo momento é estar de cara para o Sol…kkkkk, achou um Coral…sobe….a briga não termina…kkkk

    O Curso de Flutuabilidade é fantástico, fiz recentemente na AbudDive,é chegou a hora do check-out.
    Já me sinto bem mais preparado e pode ter certeza que voltarei para relatar os resultados.

    1. Hahahaha…viu só? A intenção era essa mesma: abordar o tema, mas de forma leve e divertida – mas com a positividade de que tem como melhorar. E claro, você está no caminho. Parabéns!

  2. Me identifiquei pra caramba com essa história, mas só no comecinho! O Abud pegou pesado (mentira, mas ele foi bem exigente) e rapidinho já comecei a pegar o jeito 🙂

  3. Realmente os primeiros mergulhos são complicados para controlar a flutuabilidade, mas uma coisa que percebi é que sem o próprio equipamento é muito complicado melhorar sem demandar uma grande quantidade de mergulhos, pois sempre é um BCD novo, um regulador que não para na boca por ser pesado, ou a mangueira está longa ou curta etc etc.

    Muito bom o texto parabéns.

    1. Realmente ter o seu próprio equipamento ajuda bastante: eu já aluguei até regulador cujo bocal estava completamente rasgado. Mas a consciência corporal, a tranquilidade, a respiração, são fatores muito importantes também. Obrigada pelo elogio!!!

    1. Simone, eu não sabia que vc ainda sofria com isso. Vamos fazer o curso? A parte teórica on-line já resolve boa parte da charada!

    2. Também ainda sinto dificuldades, dupla.
      Mas tenho melhorado bastante após o curso avançado. Trabalhei bastante isso.

      1. Hugo e Simone, mergulhar em Recife é um baita desafio – na entrada e saída do mar! Se vocês passam por essa batalha com facilidade, acertar a flutuabilidade será tarefa simples. Se precisarem de nossa ajuda, podem contar!

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